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30 de março de 2006

Porto Alexandre: A Fixação

“Dez anos depois da chegada dos portugueses vindos do Brasil [1849] começa a colonização dos algarvios que para aqui se deslocam nos seus próprios barcos em viagens de autênticos aventureiros honrando bem os seus antepassados navegadores.

“O primeiro a chegar é José Guerreiro de Mendonça, de Olhão, em 1860.

Nos dois anos seguintes chegam muitos outros. Uns ficam em Moçamedes, outros irradiam para a Baía das Pipas, Baba e Baía das Salinas.

“Os do Baba não se demoram aí indo fixar-se em 1863 em Porto Alexandre, onde já encontram 6 feitorias, todas de gente de Moçamedes, 4 das quais tinham ido para ali em 1861.

“Os pescadores de Porto Alexandre irradiam para o Sul, indo fixar-se em 1865, na enseada do Leão na Baía dos Tigres. Pouco se demoram dada a dificuldade de recursos de toda a ordem e a quase impossibilidade de os obterem.

“O desejo de vencer não desfalece em homens desta têmpera. Insistem e vencem. Em 1870 já se encontra na Baía dos Tigres um numeroso grupo de colonos. É sobretudo a colonização dos algarvios que se espalha pelas praias.

“Em 1884 nova seiva é dada à colonização com gente da ilha da Madeira. O Governo de Portugal fornece-a. Esta é formada de agricultores e pescadores. Os primeiros destinam-se sobretudo ao Planalto da Huíla e os segundos fixam-se em Moçamedes, a maioria no Baba e outros seguem para Porto Alexandre.

“Depois ocorrem portugueses, aos poucos, de todas as partes.

“Só em 1921 volta a haver nova corrente emigratória, desta vez de pescadores poveiros.

“Foi com o patrocínio, larga visão e perseverança dos poderes públicos, que esses homens de rija têmpera, aventureiros e colonizadores por excelência transformaram um areal deserto e abandonado na próspera região de hoje.” (1)
A loa sobre “o patrocínio, a larga visão e a perseverança dos poderes públicos”, aliás já bastante desmontada, compreende-se uma vez que o texto acima descrito é apresentado no Semanário “O Sul de Angola” como sendo da “autoria” da Câmara Municipal de Moçamedes, poder público, portanto.
'' Para sul de Moçamedes, as dificuldades de ligação por terra com o litoral eram muito maiores: o deserto impunha-se com a sua presença, perdendo-se os areais na linha do horizonte, faltava a água doce ou custava cada vez mais a encontrar e faltavam também, excepto no rio Curoca, as pequenas faixas aluvionares nos leitos dos rios temporários que existiam para norte. Todas estas circunstâncias não seduziram a fixação dos primeiros povoadores, para quem a pesca era uma actividade lucrativa, como qualquer outra.'' Apenas com o novo episódio colonizador, ligado aos fluxos algarvios de Olhão, se encetou a radicação de gente nestas paragens, na medida em que a riqueza do mar foi fortemente atractiva e pesou mais do que qualquer outro factor: em 1861 surgiram as primeiras pescarias em Porto Alexandre e, pouco mais tarde, na Baía dos Tigres, apesar da falta de água, de lenhas e de outros recursos. É possível que antes de 1870, data em que foi concedida uma licença para uma lancha navegar entre a Baía dos Tigres e Moçamedes, já ali se tenham fixado os primeiros colonos (2) .
“Também para norte de Moçamedes a influência dos pescadores algarvios foi decisiva: com grande mobilidade, favorecida pela utilização dos caíques e pela habituação a grandes deslocações, animaram e reforçaram núcleos de pesca já existentes e dispersos no litoral, criando mesmo alguns de novo, tal como sucedeu, por exemplo, na praia das Salinas.
“Não obstante em muitos desses locais não haver água potável, ou se obter a certa distância (em Porto Alexandre, no curso do Curoca, a 12 milhas a sotavento; nos Tigres, no Cunene, a cerca de 50), utilizou-se água salobra até que os caíques de Moçamedes principiassem a frequentar os vários portos. Esses caíques levavam como lastro barris de água doce, trazendo dos portos do Sul, onde o mar era riquíssimo em peixe, peixe seco e em salmoura para Benguela, Luanda e Ambriz (3)
''A partir de 1860 e até 1879, período de tempo em que se registou o maior fluxo dos pescadores de Olhão, tinha-se desencadeado novo surto agrícola, ligado à cultura do algodão; este facto levaria a população local a desviar os interesses da pesca para as terras férteis dos vales, intensificando aí o povoamento (4). Ora foi naquele espaço de tempo, que se assistiu a uma modificação radical nos mecanismos de difusão do povoamento, pois se autonomizaram dois fluxos que permitiram, em simultâneo, o desenvolvimento dos núcleos de colonização no litoral e no interior, junto de terras agricultadas: uma corrente populacional agrícola, alimentada sobretudo por transferência interna da população, e uma corrente piscatória proveniente do Algarve, responsável pela criação de alguns estabelecimentos no litoral. Se para norte de Moçamedes a influência desta última corrente se traduziu numa justaposição de grupos humanos que deram nova feição e incremento às lides do mar, foi sobretudo para sul que a maior percentagem de algarvios se fixou, criando no litoral desértico as suas instalações piscatórias. Tudo isto se compreende pela natureza dos colonos, porque o seu estabelecimento foi livre, espontâneo, realizado à margem de projectos oficiais, que não só nunca teriam aproveitado a fracção sul do litoral estudado mas, também, não teriam deixado de propor aos novos colonos o exercício da agricultura, mesmo conhecendo a sua origem. '' (5)

pesquisa e texto complementar de Admário Costa Lindo


1 Colonização de Moçamedes, Bosquejo Histórico, Preito de Homenagem, in “O Sul de Angola”, 4 de Agosto de 1949.
2 Castilho (1) pp. 129-142 e pp. 177-178
3 Iria(1)
4 No vale do Curoca, que tinha 3 propriedades agrícolas em 1859, havia 12 em 1871, das quais a mais progressiva era a de S. João do Sul; nos vales do Bentiaba e Inanmangando, de 2 fazendas em 1859 passou-se a 5. B.O. de Angola, nº 738.
5 Medeiros (1) pp.36/38

2 comentários:

Guilherme disse...

GOSTAVA DE SABER MAIS SOBRE A FAMILIA SOUSA GANHO E PEIXE MEUS FAMILIARES.
OBRIGADO
GUILHERME GANHO
BRAGA 23/01/2011

Susana Vieira disse...

Sou familiar do José Carne Viva ( José Martins ) foi na Barca Dona Ana em 1860 iam:
1 .O comandada José Guerreiro de Mendonça
2. Piloto José Guerreiro Nuno

Abordo

3. Francisco de Sousa Ganho e Esposa Maria Catarina Peixe
4., Francisco de Sousa Ganho ( filho de ambos com 9 anos),
5. António de Sousa Ganho, irmão do primeiro

E meu Bisavô

6. José Carne Viva

Algumas notas de interesse

- JOSÉ MARTINS GAGO - Armação de Pesca na Bahia dos Tigres em 1909

- JOÃO MARTINS NUNES - Delegado da Repartição de Fazenda de Bahia dos Tigres e Porto Alexandre em 1909

- FRANCISCO JOSÉ de SOUSA PEIXE - Juiz Popular de Porto Alexandre em 1909

- FRANCISCO de SOUSA GANHO - Armação de Pesca em Mossamedes,1909


Gostaria de saber mais sobre o meu familiar...


Gilberto Carvalho
susana.vieira007@gmail.com