






Esta transcrição serve apenas como recordação para a família e amigos mais chegados, daquele que foi, tal qual o seu pai (nosso avô) um trabalhador incansável, um bom marido, bom pai e grande amigo.
Para além da população permanente que vivia, toda ela, directa ou indirectamente a pesca, havia o funcionalismo público, próprio de um concelho equipado com todos os serviços normais como Correios, Repartição da Fazenda Pública, Administração, Alfândega, Delegação Marítima, Delegação de Saúde e Hospital, Junta de Exportação, Florestas e Protecção das Dunas e Pároco da Freguesia, cujo patrono era S. Pedro.
As pessoas aqui lembradas teriam, eventualemente, algumas particularidades que, então, as marcassem para ainda estram presentes na minha memória. Dos restantes, que eram o maior número, ainda retenho a lembrança de muitos, mas sem a mesma nitidez e por isso não cabem numa relação que não é um recenseamento da população de Porto Alexandre na década de quarenta.
Todos se encaixavam, melhor ou pior, neste meio social muito característico que já ia na terceira geração aqui nascida, descendentes dos primeiros pescadores algarvios de Olhão que vieram para estas praias. Havia no entanto uma “classe” que não pode deixar de ser referida, a dos agiotas que praticavam juros de enforcado e a que eu recorri por mais de uma vez. Em Porto Alexandre era muito pequena, mas numerosa em Moçamedes, simbolizada pelo Passa Fome. Ao fim e ao cabo era o resultado de o dinheiro do Banco de Angola não ser para emprestar aos industriais de pesca, mas apenas aos comerciantes.
Pessoas houve que, não tendo relações familiares, exerceram grande influência no seu tempo e foram altamente consideradas, de que é exemplo o meu conterrâneo José de Matos Garcia que, para além de grande industrial em Porto Alexandre, foi presidente da Câmara Municipal de Moçamedes e presidente do Sindicato de Pesca do Distrito de Moçamedes, sendo um dos homens mais destacados do seu tempo, tanto em Porto Alexandre como em Moçamedes.
Uma relação desta natureza ficaria incompleta se não fizesse referência à população negra permanente, que era muito reduzida, pois a grande maioria era eventual e constituída pelos chamados Munanos, vindos contratados dos planaltos do Sul e dos Ganguelas. A essa população permanente chamavam Quimbares, supostamente de várias origens, talvez alguns Curocas, rio cujo vale tinha condições mínimas de habitabilidade e ficava próximo da Vila.
Dos homens ainda recordo alguns:
SANGOLAR, mestre de uma canoa de pesca à linha do Tomé Tendinha;
CANGÚIA, também mestre e proprietário de uma canoa cuja mulher, a Beatriz, ainda era viva quando de lá saí;
MACUíCA, contra-mestre de uma sacada da Conserveira, cujo mestre era o Américo Silva ou Juventino Graça;
CARECA, motorita de uma enviada da Conserveira;
JOSÉ REPUBLICANO [1], assim chamado por ter nascido no dia 5 de Outubro de 1910, pescador e parece que ainda era vivo por volta de 1994;
CÉSAR, serralheiro da Conserveira, um grande artista na sua profissão, saído da grande escola que foi, no seu tempo, a Companhia do Sula de Angola;
CARLOS, também serralheiro da Parceria de Pesca;
JOSÉ CHIRULO, caixotero da Conserveira;
DOMINGOS MUCUBAL, ajudante na camionagem de Sousa & Irmão, foi o único elemento da sua etnia que conheci com hábitos de assimilado;
TALAMUCA, pisteiro dos caçarretas da região;
MATEUS, suponho que era Curoca e grande fumador de cangnha;
CHICO, servente da Pensão do Chico da Conceição – Cardoso;
AUGUSTO, mestre do galeão Vissonga;
VELHO, cozinheiro da Messe do Pessoa.
Das mulheres lembro mais nomes e imagens do que dos homens, tais como:
HELENA COMBOIO, que era uma bonita rapariga;
ANTÓNIA, que era ligeiramente cambaia;
DOMINGAS, certamente Curoca e que foi minha lavadeira durante muito tempo;
CAQUINDA, filha do Republicano, que lhe deu uma tareia por ela andar metida com brancos;
CLARISSE, afilhada do Celestino Carvalho que a mulher criou até rapariga;
SEGUNDA GORDA, que na altura já era mulher de certa idade;
CÂMIA, que era zarolha e me deu uma lição de comportamento;
DOMINGAS CANHÓNHÓ, vivia com o João Nunes Cardoso, gerente da pensão do Chico da Conceição, então a única da terra;
GUÉU, tia da Helena Comboio e que viveu com o velho Beja carpinteiro;
JÚLIA, enlatadeira da Conserveira;
JÚLIA, mulher de um pescador quimbare;
CANGO, que esteve presa durante uns meses na Baía dos Tigres por problemas com o Chico da Conceição;
CACHOPA, criada de miúda em casa da Cândida Trocado;
EUGÉNIA ZAROLHA, lavadeira;
MARIAZINHA, filha da Coxa curoca, sogra de um Barreto, era servente da D. Maria Luísa Arrobas da Silva; tinha uma irmã chamada Chitenga;
CATCHAFO, que veio com um contratado Cuanhama e depois por lá ficou;
PALMIRA DO SANTANA, que substituiu a D. Virgínia Maló como chefe das enlatadeiras da Conserveira;
CHICA, filha de um Francisco do Norte, aqui a cumprir pena em liberdade;
CREMILDE, mestiça, enlatadeira do Patrício Correia;
SEGUNDA, filha da Segunda Gorda;
ADELINA, afilhada da D. Adelina do Manuel do Motor;
Em Moçamedes lembro-me da GENINHA, filha do Quarenta Raios; a LAURA HÚMIDA, que foi para Benguela.
Dos Quimbares, homens e mulheres, tenho ideia vaga de outros mais que não consigo localizar, nem pelos nomes nem por outros pormenores.
Todos estes nomes são hoje figuras anónimas que pouquíssimas pessoas cnseguirão retirar desse anonimato, situação agravada com as condições que osa mortos e os vivos tiveram de sujeitar-se no final de uma época que acabou em morte violenta.
NR
[1] Seria, mais tarde, o Regedor de Porto Alexandre.
Pensar na fundação de Porto Alexandre, a terra onde nasci, faz-me pensar em primeiro lugar nos meus antepassados.
É, portanto, a eles que quero prestar aqui uma singela homenagem. E através deles a todos os outros que, naquele tempo, desbravaram terras, abriram caminhos, suaram e sofreram naquela maravilhosa terra plena de beleza e riqueza natural.
Ao fazer uma viagem ao passado lembro todos os que, no final do Séc. XIX e princípio do Sec. XX, saíram de Portugal Continental procurando nas colónias uma vida melhor ou, nalguns casos, também uma aventura.
Sabiam, no entanto, que essa vida melhor não estava lá à espera deles. Souberam logo que pisaram aquelas terras que essa vida melhor teria que ser construída por eles.
Quando chegaram, encontraram pouco mais do que nada que se parecesse com o mundo que conheciam. Do nada fizeram casas, traineiras, captações de água potável, latrinas, e depois escolas, igrejas, fábricas, hotéis. Dito assim parece até simples. Dito assim por alguém que só conheceu Angola já com todos estes sinais de civilização europeia, parece até afronta aos que tanto lutaram para fazer tudo isto.
Depois daqueles primeiros grupos outros lhes seguiram o exemplo e durante todo o Sec. XX milhares de portugueses partiram para os então chamados territórios ultramarinos. Felizmente para eles, os que chegaram a Angola nas décadas de 50, 60 e 70 já encontraram a terra desbravada. Os relatos dos pioneiros podem para eles parecer cenas de filme.
Mas foram todos, os pioneiros e os outros, que fizeram de Angola a terra que nós deixámos há trinta anos.
A história da colonização dos territórios portugueses em África está, naturalmente, cheia de erros, contradições, injustiças, alguns pecados mortais.
Alguns falarão mesmo de um pecado original colocando a questão: tinham os países europeus o direito de colonizar e aculturar as terras africanas? Talvez hoje muitos digam que não com a pose de quem afirma uma verdade insofismável.
Mas a maior verdade de todas é a dialéctica da história. A realidade histórica não pode ser apagada. Injusto é julgar a história de ontem com as ideias de hoje.
A história de ontem – com todos os erros e omissões – não faz dos nossos avós exploradores de negros ou ferozes racistas. A história de ontem mostra-nos homens e mulheres valentes no seu tempo. A história de ontem mostra-nos gente que, procurando para si o bem de uma vida melhor, criou em terras africanas incomensuráveis riquezas para a Pátria que amavam.
A história de ontem mostra portugueses algarvios, nazarenos, minhotos, transmontanos e outros que deram corpo à palavra miscigenação criando várias gerações dos que hoje se usa chamar luso-africanos, mas que eram apenas outros portugueses.
Mais tarde, várias gerações depois, foi com profundo espanto e indescritível tristeza que todos eles ouviram dizer que Angola não era deles. Quando todos se habituaram a acreditar que Angola era Portugal e que todos os que nasciam em Angola sob bandeira portuguesa eram portugueses. Infelizmente, a Pátria portuguesa não entendeu assim.
pesquisa e texto completar de Admário Costa Lindo
1 Medeiros (1) p.18.
2 Felner (1) vol. I, parte V.
3 Medeiros ob.cit. pp. 34/35
4 Câmara (1) p. 362.
5 Iria (1). Ribeiro Villas, citado por este autor, refere que em 1854 se encontravam estabelecidos no litoral correspondente à actual cidade de Porto Alexandre, alguns pescadores europeus, que eram em regra algarvios. Ainda segundo A. Iria, certas medidas de encorajamento à pesca, tomadas em 1856 pelo Marquês de Sá da Bandeira, derivaram da constatação da '' já ... tão vantajosa actividade dos pescadores do Algarve. ''
6 Medeiros ob.cit. pp. 30/31