“Passavam carros eléctricos, automóveis e carroças, muitas carroças, em cujos condutores reconheceu também vozes de portugueses. «Todos iam arranjando a sua vida, menos ele! E quem sabe? Quantos outros haveria que nem uma carroça…»
“No cais, lá estavam os escaleres dos poveiros, com um pouco de água a estremecer no fundo e encharcadinhos de sol.” (1)
Estes poveiros, de Ferreira de Castro, arribariam a Porto Alexandre em 1921.
“A ida dos pescadores da Póvoa de Varzim para Angola e Moçambique está relacionada com a emigração dos poveiros para o Brasil. Em 1920 as autoridades brasileiras determinaram que os pescadores estrangeiros só poderiam continuar a actuar nas águas do Brasil desde que: se naturalizassem brasileiros até 12 de Outubro do referido ano; nacionalizassem as suas embarcações; organizassem «companhas» de modo que dois terços da tripulação de cada barco fosse brasileira.
“Os pescadores da Póvoa de Varzim obedeceram às duas últimas condições arvorando nos seus barcos a bandeira do Brasil e pedindo, através de editais, a colaboração de tripulantes brasileiros. Mas como, na sua quase totalidade, se escusaram à naturalização, tiveram de regressar à Póvoa, em número de cerca de mil. Em 30 de Outubro de 1920 chegou a Lisboa o primeiro contingente de 250 pescadores, seguindo-se-lhes outro grupo, de 302, desembarcados em Leixões em 5 de Novembro…
“Embora com os marítimos da Póvoa de Varzim tivessem regressado do Brasil - e pelos mesmos motivos - pescadores de outros lugares da nossa costa, o conjunto poveiro sobrelevou, em amplíssima escala, os pequenos contingentes dos restantes centros. Daí o facto de na Póvoa de Varzim se virem a sentir de um modo mais dramático os problemas sociais e económicos derivados do retorno de tão grande massa de indivíduos, para cuja utilização nada estava preparado. Extintos os ecos da recepção calorosa e romântica, cedo se verificou que uma crua miséria enlaçara bastantes dos que haviam voltado, e ameaçava muitos mais, tornando-se urgente a tomada de medidas que evitassem tamanha e injusta desgraça…”
Por outro lado, Norton de Matos que queria “assentar no litoral do sul de Angola as bases de uma indústria piscatória voltada para o futuro, lançou a ideia da instalação de uma colónia de poveiros em Porto Alexandre, facilitando a solução de todos os pormenores decorrentes da sua proposta.
“Em 24 de Fevereiro de 1921, no paquete África, partiam de Lisboa para Porto Alexandre 62 dos pescadores poveiros regressados do Brasil, que chegaram ao seu destino em 14 de Março; à frente tinham sido enviados os seus barcos e aprestos, que às praias africanas levavam, pela primeira vez, elementos típicos do areal e da enseada da Póvoa. Entretanto o General Norton de Matos mandara construir em Porto Alexandre um bairro destinado às famílias dos pescadores poveiros, a fim de as atrair e fixar ao solo de Angola.” (2)
“Um dos pescadores poveiros idos para Porto Alexandre, Manuel Francisco Trocado , dizia em carta dos finais de 1921: “Acrescentarei ainda que o sistema de pesca que adoptamos é muito fácil: fizemos uma sacada, como uma nassa, que nos importou em 2 contos. Lança-se ao mar, seguras as extremidades por 2 barcos, e em um, ou, no máximo em dous lanços, carregamos o barco de peixe”. (3)
pesquisa e texto complementar de Admário Costa Lindo
1 CASTRO, Ferreira de. A Selva, Livraria Editora Guimarães & Cª , Lisboa, 1957 (18ª edição), p. 75
2 GONÇALVES, Flávio. Os pescadores poveiros em Angola e Moçambique , Póvoa de Varzim Boletim Cultural, volume VI nº 2, C.M. da Póvoa de Varzim, 1967. pp. 286/288
3 “O Comércio da Póvoa de Varzim”, 11/10/1921.
31 de março de 2006
30 de março de 2006
Maria da Cruz Rolão
“A indústria piscatória em Março do mesmo ano [1861] foi fortalecida com a chegada de novos Algarvios : José Rolão, sua mulher Maria da Cruz Rolão e dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz; Manuel Tomé do Ó, Manuel Galambas e José Mendonça Pretinho; em Julho, da mesma proveniência, de Olhão, no vapor D. António, João da Rosa Machado, José Martins Ganho, João Lourenço Galarão, João do Sacramento Pintassilgo, Lourenço de Sousa Farroba e Manuel Nunes de Carvalho, «o quais trouxeram a primeira rede e se fizeram acompanhar de uma canoa.
”Para intrépidos e valentes filhos de Olhão, a viagem em vapor, tendo barcos seus, não era coisa com que se conformassem; e, assim, Bernardino do Nascimento, O. Brancanes e Francisco Ferreira Nunes, societários do Caíque Flor de Maio, resolveram ir até Mossâmedes, arranjando para isso uma companhia em que entravam, além dos dois, Pedro Mendes. Pelo José (piloto), Manuel Ramos de Jesus Pereira, João da Encarnação Peleira, e um pequeno chamado Baptista.
“O intento desses destemidos, porém, esbarrou contra a decisão das autoridades, que lhe proibiram a viagem, com fundamento nas poucas possibilidades do barco e do diminuto número de tripulantes. No entanto o travão não foi de carácter definitivo. A intervenção do Dr. Estêvão Afonso, junto de José Estêvão, então deputado por Aveiro, removeu a dificuldades encontradas, e os cotados algarvios chegaram a Mossâmedes em 3 de Agosto, daquele mesmo ano de 61.
“Foi à corrente emigratória algarvia que Mossâmedes e baías próximas ficaram
devendo o empurrão que as transformou em apreciáveis centros piscatórios.”
Delgado (2) vol. II pp. 60/61
“Elegeram, entre si, o seu próprio chefe. A escolha recaiu no colono Cruz Rolão, algarvio que deve ter indo da sua terra na primeira viagem do caíque «D. Ana», em 1860, com Francisco de Sousa Ganho, ou no caíque «Flor de Maio», que em 1863 fundeou na baía de Porto Alexandre.
“Cruz Rolão era homem humilde, mas sensato e sabedor. Houve-se muito bem nas funções em que foi investido. Após a sua morte, em data que ignoramos, sucedeu-lhe a viúva, Maria da Cruz Rolão. Esta sabia ler e escrever, tinha alguma cultura e, sobretudo, era possuidora duma coragem e decisão muito fora do vulgar. Impunha-se aos seus administradores e a todos pela sua energia e prestígio. Por várias vezes, Maria da Cruz tomou decisões importantíssimas para a comunidade que chefiava. Em dada altura, os hotentotes, vindos do Sudoeste, acossados pelos alemães, passaram ao nosso território e dedicavam-se à pilhagem e ao massacre. A povoação de Porto Alexandre estava nesta contingência. Porém, a regedora procurou estabelecer contacto com os chefes daquela gente, o que conseguiu, e teve com eles uma conferência, no local denominado por Arco do Carvalhão, a uns trinta e cinco quilómetros para Leste do aglomerado populacional, e este foi salvo.
“Igualmente, em data que não ficou registada ( mas deste facto nos fala o grande almirante Augusto Castilho), fundeou um navio de guerra inglês na baía, em frente à habitação de Maria da Cruz. Pouco depois, os súbditos de Sua Majestade, esquecendo-se que estavam em território duma nação que lhes devia merecer muito respeito, iniciaram exercícios de tiro para a restinga que forma a baía. Muitos dos projécteis iam cair do outro lado, no mar, onde andavam, calma e despreocupadamente, os nossos pescadores, nas suas actividades. Este acto arrogante levantou protestos das mulheres e crianças que estavam em terra, porquanto traziam no mar os maridos, pais e irmãos. Em pranto, dirigiram-se a casa da regedora e pediram-lhe que acabasse com aquele abuso do navio estrangeiro.Maria da Cruz mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio britânico. Saias arregaçadas, punhos cerrados, gesticulando e no seu fraseado de gente do mar, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com a perigosa brincadeira. Aquele, que apenas deve ter compreendido a indignação e o desassombro duma verdadeira mulher de armas, fez suspender o fogo, abandonando o fundeadouro no dia seguinte.”
Moreira (1) pp. 20/21
pesquisa de João Manuel Mangericão e Admário Costa Lindo
Porto Alexandre: A Fixação
“Dez anos depois da chegada dos portugueses vindos do Brasil [1849] começa a colonização dos algarvios que para aqui se deslocam nos seus próprios barcos em viagens de autênticos aventureiros honrando bem os seus antepassados navegadores.
“O primeiro a chegar é José Guerreiro de Mendonça, de Olhão, em 1860.
Nos dois anos seguintes chegam muitos outros. Uns ficam em Moçamedes, outros irradiam para a Baía das Pipas, Baba e Baía das Salinas.
“Os do Baba não se demoram aí indo fixar-se em 1863 em Porto Alexandre, onde já encontram 6 feitorias, todas de gente de Moçamedes, 4 das quais tinham ido para ali em 1861.
“Os pescadores de Porto Alexandre irradiam para o Sul, indo fixar-se em 1865, na enseada do Leão na Baía dos Tigres. Pouco se demoram dada a dificuldade de recursos de toda a ordem e a quase impossibilidade de os obterem.
“O desejo de vencer não desfalece em homens desta têmpera. Insistem e vencem. Em 1870 já se encontra na Baía dos Tigres um numeroso grupo de colonos. É sobretudo a colonização dos algarvios que se espalha pelas praias.
“Em 1884 nova seiva é dada à colonização com gente da ilha da Madeira. O Governo de Portugal fornece-a. Esta é formada de agricultores e pescadores. Os primeiros destinam-se sobretudo ao Planalto da Huíla e os segundos fixam-se em Moçamedes, a maioria no Baba e outros seguem para Porto Alexandre.
“Depois ocorrem portugueses, aos poucos, de todas as partes.
“Só em 1921 volta a haver nova corrente emigratória, desta vez de pescadores poveiros.
“Foi com o patrocínio, larga visão e perseverança dos poderes públicos, que esses homens de rija têmpera, aventureiros e colonizadores por excelência transformaram um areal deserto e abandonado na próspera região de hoje.” (1)
A loa sobre “o patrocínio, a larga visão e a perseverança dos poderes públicos”, aliás já bastante desmontada, compreende-se uma vez que o texto acima descrito é apresentado no Semanário “O Sul de Angola” como sendo da “autoria” da Câmara Municipal de Moçamedes, poder público, portanto.
'' Para sul de Moçamedes, as dificuldades de ligação por terra com o litoral eram muito maiores: o deserto impunha-se com a sua presença, perdendo-se os areais na linha do horizonte, faltava a água doce ou custava cada vez mais a encontrar e faltavam também, excepto no rio Curoca, as pequenas faixas aluvionares nos leitos dos rios temporários que existiam para norte. Todas estas circunstâncias não seduziram a fixação dos primeiros povoadores, para quem a pesca era uma actividade lucrativa, como qualquer outra.'' Apenas com o novo episódio colonizador, ligado aos fluxos algarvios de Olhão, se encetou a radicação de gente nestas paragens, na medida em que a riqueza do mar foi fortemente atractiva e pesou mais do que qualquer outro factor: em 1861 surgiram as primeiras pescarias em Porto Alexandre e, pouco mais tarde, na Baía dos Tigres, apesar da falta de água, de lenhas e de outros recursos. É possível que antes de 1870, data em que foi concedida uma licença para uma lancha navegar entre a Baía dos Tigres e Moçamedes, já ali se tenham fixado os primeiros colonos (2) .
“Também para norte de Moçamedes a influência dos pescadores algarvios foi decisiva: com grande mobilidade, favorecida pela utilização dos caíques e pela habituação a grandes deslocações, animaram e reforçaram núcleos de pesca já existentes e dispersos no litoral, criando mesmo alguns de novo, tal como sucedeu, por exemplo, na praia das Salinas.
“Não obstante em muitos desses locais não haver água potável, ou se obter a certa distância (em Porto Alexandre, no curso do Curoca, a 12 milhas a sotavento; nos Tigres, no Cunene, a cerca de 50), utilizou-se água salobra até que os caíques de Moçamedes principiassem a frequentar os vários portos. Esses caíques levavam como lastro barris de água doce, trazendo dos portos do Sul, onde o mar era riquíssimo em peixe, peixe seco e em salmoura para Benguela, Luanda e Ambriz (3) …
''A partir de 1860 e até 1879, período de tempo em que se registou o maior fluxo dos pescadores de Olhão, tinha-se desencadeado novo surto agrícola, ligado à cultura do algodão; este facto levaria a população local a desviar os interesses da pesca para as terras férteis dos vales, intensificando aí o povoamento (4). Ora foi naquele espaço de tempo, que se assistiu a uma modificação radical nos mecanismos de difusão do povoamento, pois se autonomizaram dois fluxos que permitiram, em simultâneo, o desenvolvimento dos núcleos de colonização no litoral e no interior, junto de terras agricultadas: uma corrente populacional agrícola, alimentada sobretudo por transferência interna da população, e uma corrente piscatória proveniente do Algarve, responsável pela criação de alguns estabelecimentos no litoral. Se para norte de Moçamedes a influência desta última corrente se traduziu numa justaposição de grupos humanos que deram nova feição e incremento às lides do mar, foi sobretudo para sul que a maior percentagem de algarvios se fixou, criando no litoral desértico as suas instalações piscatórias. Tudo isto se compreende pela natureza dos colonos, porque o seu estabelecimento foi livre, espontâneo, realizado à margem de projectos oficiais, que não só nunca teriam aproveitado a fracção sul do litoral estudado mas, também, não teriam deixado de propor aos novos colonos o exercício da agricultura, mesmo conhecendo a sua origem. '' (5)
pesquisa e texto complementar de Admário Costa Lindo
1 Colonização de Moçamedes, Bosquejo Histórico, Preito de Homenagem, in “O Sul de Angola”, 4 de Agosto de 1949.
2 Castilho (1) pp. 129-142 e pp. 177-178
3 Iria(1)
4 No vale do Curoca, que tinha 3 propriedades agrícolas em 1859, havia 12 em 1871, das quais a mais progressiva era a de S. João do Sul; nos vales do Bentiaba e Inanmangando, de 2 fazendas em 1859 passou-se a 5. B.O. de Angola, nº 738.
5 Medeiros (1) pp.36/38
“O primeiro a chegar é José Guerreiro de Mendonça, de Olhão, em 1860.
Nos dois anos seguintes chegam muitos outros. Uns ficam em Moçamedes, outros irradiam para a Baía das Pipas, Baba e Baía das Salinas.
“Os do Baba não se demoram aí indo fixar-se em 1863 em Porto Alexandre, onde já encontram 6 feitorias, todas de gente de Moçamedes, 4 das quais tinham ido para ali em 1861.
“Os pescadores de Porto Alexandre irradiam para o Sul, indo fixar-se em 1865, na enseada do Leão na Baía dos Tigres. Pouco se demoram dada a dificuldade de recursos de toda a ordem e a quase impossibilidade de os obterem.
“O desejo de vencer não desfalece em homens desta têmpera. Insistem e vencem. Em 1870 já se encontra na Baía dos Tigres um numeroso grupo de colonos. É sobretudo a colonização dos algarvios que se espalha pelas praias.
“Em 1884 nova seiva é dada à colonização com gente da ilha da Madeira. O Governo de Portugal fornece-a. Esta é formada de agricultores e pescadores. Os primeiros destinam-se sobretudo ao Planalto da Huíla e os segundos fixam-se em Moçamedes, a maioria no Baba e outros seguem para Porto Alexandre.
“Depois ocorrem portugueses, aos poucos, de todas as partes.
“Só em 1921 volta a haver nova corrente emigratória, desta vez de pescadores poveiros.
“Foi com o patrocínio, larga visão e perseverança dos poderes públicos, que esses homens de rija têmpera, aventureiros e colonizadores por excelência transformaram um areal deserto e abandonado na próspera região de hoje.” (1)
A loa sobre “o patrocínio, a larga visão e a perseverança dos poderes públicos”, aliás já bastante desmontada, compreende-se uma vez que o texto acima descrito é apresentado no Semanário “O Sul de Angola” como sendo da “autoria” da Câmara Municipal de Moçamedes, poder público, portanto.
'' Para sul de Moçamedes, as dificuldades de ligação por terra com o litoral eram muito maiores: o deserto impunha-se com a sua presença, perdendo-se os areais na linha do horizonte, faltava a água doce ou custava cada vez mais a encontrar e faltavam também, excepto no rio Curoca, as pequenas faixas aluvionares nos leitos dos rios temporários que existiam para norte. Todas estas circunstâncias não seduziram a fixação dos primeiros povoadores, para quem a pesca era uma actividade lucrativa, como qualquer outra.'' Apenas com o novo episódio colonizador, ligado aos fluxos algarvios de Olhão, se encetou a radicação de gente nestas paragens, na medida em que a riqueza do mar foi fortemente atractiva e pesou mais do que qualquer outro factor: em 1861 surgiram as primeiras pescarias em Porto Alexandre e, pouco mais tarde, na Baía dos Tigres, apesar da falta de água, de lenhas e de outros recursos. É possível que antes de 1870, data em que foi concedida uma licença para uma lancha navegar entre a Baía dos Tigres e Moçamedes, já ali se tenham fixado os primeiros colonos (2) .
“Também para norte de Moçamedes a influência dos pescadores algarvios foi decisiva: com grande mobilidade, favorecida pela utilização dos caíques e pela habituação a grandes deslocações, animaram e reforçaram núcleos de pesca já existentes e dispersos no litoral, criando mesmo alguns de novo, tal como sucedeu, por exemplo, na praia das Salinas.
“Não obstante em muitos desses locais não haver água potável, ou se obter a certa distância (em Porto Alexandre, no curso do Curoca, a 12 milhas a sotavento; nos Tigres, no Cunene, a cerca de 50), utilizou-se água salobra até que os caíques de Moçamedes principiassem a frequentar os vários portos. Esses caíques levavam como lastro barris de água doce, trazendo dos portos do Sul, onde o mar era riquíssimo em peixe, peixe seco e em salmoura para Benguela, Luanda e Ambriz (3) …
''A partir de 1860 e até 1879, período de tempo em que se registou o maior fluxo dos pescadores de Olhão, tinha-se desencadeado novo surto agrícola, ligado à cultura do algodão; este facto levaria a população local a desviar os interesses da pesca para as terras férteis dos vales, intensificando aí o povoamento (4). Ora foi naquele espaço de tempo, que se assistiu a uma modificação radical nos mecanismos de difusão do povoamento, pois se autonomizaram dois fluxos que permitiram, em simultâneo, o desenvolvimento dos núcleos de colonização no litoral e no interior, junto de terras agricultadas: uma corrente populacional agrícola, alimentada sobretudo por transferência interna da população, e uma corrente piscatória proveniente do Algarve, responsável pela criação de alguns estabelecimentos no litoral. Se para norte de Moçamedes a influência desta última corrente se traduziu numa justaposição de grupos humanos que deram nova feição e incremento às lides do mar, foi sobretudo para sul que a maior percentagem de algarvios se fixou, criando no litoral desértico as suas instalações piscatórias. Tudo isto se compreende pela natureza dos colonos, porque o seu estabelecimento foi livre, espontâneo, realizado à margem de projectos oficiais, que não só nunca teriam aproveitado a fracção sul do litoral estudado mas, também, não teriam deixado de propor aos novos colonos o exercício da agricultura, mesmo conhecendo a sua origem. '' (5)
pesquisa e texto complementar de Admário Costa Lindo
1 Colonização de Moçamedes, Bosquejo Histórico, Preito de Homenagem, in “O Sul de Angola”, 4 de Agosto de 1949.
2 Castilho (1) pp. 129-142 e pp. 177-178
3 Iria(1)
4 No vale do Curoca, que tinha 3 propriedades agrícolas em 1859, havia 12 em 1871, das quais a mais progressiva era a de S. João do Sul; nos vales do Bentiaba e Inanmangando, de 2 fazendas em 1859 passou-se a 5. B.O. de Angola, nº 738.
5 Medeiros (1) pp.36/38
A Visão dos Algarvios
O desenvolvimento de Porto Alexandre esteve sempre ligado à exploração de todo o litoral do Namibe: “trata-se duma região de colonização tardia à escala angolana, que se efectuou numa época em que a escravatura ia perdendo importância; tratava-se, portanto dum território marginal até ao século XX, pois Benguela constituía o marco mais meridional na época de ouro do tráfego negreiro; trata-se também duma franja costeira onde se registou a maior concentração de pescarias, as quais, apenas por si próprias, explicam o enraizamento geográfico dalgumas povoações (por exemplo, Porto Alexandre e Baía dos Tigres); trata-se, enfim, duma área com características climáticas originais, que condicionam relações económicas singulares entre o litoral e o interior.” (1)
É bom notar que, até meados do séc. XIX, a aposta do Governo de Lisboa sempre foi no sentido de implementar na região um plano de colonização com base na exploração agrícola. Foi por iniciativa própria dos colonos, avultando neste aspecto os Olhanenses, que se iniciou a exploração da riqueza marinha do litoral.
Com efeito, “em 1850 havia em Moçamedes «7 pretos oriundos de Luanda ocupados nas pescarias do Estado além de 4 praças da estação naval que utilizavam duas redes boas e outras de algodão fabricadas no local, além de 3 escaleres»; (2) 7 particulares tinham também escaleres, empregando 40 homens, dos quais apenas 3 brancos. Os revezes sofridos pelos agricultores e as dificuldades de comunicações, a instabilidade das populações indígenas do interior, fizeram com que muitos colonos e até funcionários se tivessem dedicado, em maior ou menor escala, à pesca e ao comércio da urzela.” (3)
'' Em 1860 um novo episódio histórico, cujos efeitos se prolongaram mesmo até ao nosso século [séc. XX], teve carácter decisivo na evolução do povoamento e das bases económicas do litoral ao sul de Benguela - o afluxo acidental de pescadores de Olhão. Nesta data, o porto de Moçamedes continuava a servir de ponto de apoio para todas as acções de colonização estimuladas pelo governo de Lisboa que, então, se dirigiam para os planaltos do interior. Esporadicamente, a bordo de muitos navios de escala, chegaram alguns colonos acompanhados de familiares e um ou outro grupo de degredados que, apesar das constantes ameaças de guerrilha dos povos do Nano, eram os efectivos humanos de que se dispunha para prossecução dos objectivos da política ultramarina; essa gente era instalada em pequenos «redutos» de povoamento branco, geralmente protegidos por um forte.
'' Ao invés do que sucedia, os pescadores de Olhão, que eram considerados os melhores do reino e «mui destros na pescaria do mar alto» (4) , principiavam a vir, fruto do acaso, quer pela sua habituação ao mar, quer também depois pela influência das notícias de conterrâneos já fixados. A frequentação do porto de Moçamedes pela tripulação dos navios nacionais, entre a qual se poderiam contar vários algarvios, mostrara as grandes potencialidades oferecidas pelo mar que sulcavam, não só pela quantidade, mas também pela qualidade de peixe que nele existia.
'' Embora na primeira metade do século XIX houvesse alguns algarvios entre os componentes das correntes migratórias que se articulavam em Moçamedes (5) , não se pode falar, antes de 1860, duma autêntica vaga de colonização algarvia. Esta correspondeu a um processo migratório de características originais: enquanto oficialmente se continuava a preparar e a pensar numa colonização de base agrícola, com a vinda de pescadores do Algarve gerou-se uma ocupação espontânea do litoral que se prolongou no tempo, de forma contínua e permanente.” (6)
pesquisa e texto completar de Admário Costa Lindo
1 Medeiros (1) p.18.
2 Felner (1) vol. I, parte V.
3 Medeiros ob.cit. pp. 34/35
4 Câmara (1) p. 362.
5 Iria (1). Ribeiro Villas, citado por este autor, refere que em 1854 se encontravam estabelecidos no litoral correspondente à actual cidade de Porto Alexandre, alguns pescadores europeus, que eram em regra algarvios. Ainda segundo A. Iria, certas medidas de encorajamento à pesca, tomadas em 1856 pelo Marquês de Sá da Bandeira, derivaram da constatação da '' já ... tão vantajosa actividade dos pescadores do Algarve. ''
6 Medeiros ob.cit. pp. 30/31
8 de março de 2006
Moçamedes: Origem e 1ªs Letras
MOÇAMEDES
O nome primitivamente dado à região onde se ergue hoje a airosa e progressiva cidade de Moçâmedes foi o de Angra do Negro; as primeiras referências certas que dela se conhecem remontam ao tempo do governador- geral Francisco de Souto Maior, que, vindo do Brasil para Angola, em 1645, ali aproou para fazer aguada e comprar mantimentos.
Tornou-se historicamente famosa a expedição que Gregório José Mendes e Luís Cândido Pinheiro Furtado fizeram em 1785, explorando a Angra do Negro, que passou a designar-se por Baía de Moçâmedes, em homenagem ao governador-geral de Angola, desse tempo, José de Almeida e Vasconcelos, Barão de Moçâmedes. A povoação que lhe emprestou o seu nome é uma pequena aldeia do concelho de Vouzela, no distrito de Viseu.
Gregório José Mendes era rico comerciante e sargento-mor das ordenanças, tendo tomado sobre si o encargo material da expedição. Isso nos leva a pensar que tenha havido também interesses mercantis a motivá-la, que não fosse apenas o amor pátrio e o apreço pela ciência a mover a máquina e a imprimir-lhe o impulso... Pinheiro Furtado, por sua vez, era distinto engenheiro e oficial das forças armadas; navegava na fragata “Luanda”, pilotada por Manuel José da Silveira. A expedição de Gregório José Mendes seguia por terra e a de Pinheiro Furtado por mar. Logo à chegada, tiveram notícias de que alguns portugueses, e entre eles o tenente de artilharia, José de Sousa Sepúlveda, e o cirurgião Francisco Bernardes tinham sido mortos pelo gentio, devido a terem-se internado no sertão, praticando violências.
O local onde se situa a “cidade do mar e do deserto” foi pouco depois abandonado. Retomaram-se mais tarde as posições e fundou-se o presídio, por volta de 1840. Cinco anos mais adiante, em 1845, estabeleceu-se aqui uma colónia de brasileiros. Com efeito, em 1838, Sá da Bandeira ordenara que a região fosse efectiva e definitivamente ocupada; no ano seguinte, organizou-se a expedição de Pedro Alexandrino da Cunha e João Francisco Garcia, que repetiram de perto a proeza de Gregório José Mendes e Luís Cândido Pinheiro Furtado. Foram eles que fundaram a feitoria. A expedição foi apoiada também por abastados comerciantes, cujos nomes são conhecidos.
A fortaleza edificada neste local recebeu o nome de S. Fernando, em homenagem ao rei de Portugal; trata-se de D. Fernando II, marido da rainha D. Maria II. A igreja paroquial, por sua vez, foi dedicada a Santo Adrião, em preito de reconhecimento ao governador-geral de Angola, Adrião Acácio da Silveira Pinto.
A 4 de Agosto de 1849, os colonos brasileiros, chefiados por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu, desembarcaram no porto desta localidade; tinham feito a viagem a bordo da barca ou nau “Tentativa Feliz”, que fora escoltada pelo brigue “Douro”. Um ano depois, em 26 de Novembro de 1850, desembarcava novo contingente de colonos, que viajou na “Bracarense”, comboiada pela mesma unidade de guerra que acompanhara a primeira expedição.
Sá da Bandeira elevou a nova povoação à categoria de vila, poucos anos após a sua fundação, no ano de 1855; a sua elevação a cidade efectuou-se em 1907, para comemorar a visita do príncipe real D. Luís Filipe.
Moçâmedes foi escolhida para local de cura e de repouso, sobretudo para o funcionalismo público. A junta de saúde enviava para ali os doentes que careciam de mudança de ares e estada em climas saudáveis. Fundou-se um hospício em 1856; algumas dezenas de anos mais tarde, em 1885, era estabelecido o Sanitarium, de que se esperava frutos abundantes na recuperação da saúde daqueles que a longa permanência em Angola tinha depauperado.
Poderá dizer-se que um dos primeiros cronistas da Moçâmedes foi J. F. Pederneira. Poderemos admitir a hipótese de se tratar de João Feliciano Pederneira, professor do ensino primário, com notas biográficas neste trabalho. Contudo, não nos atrevemos a sustentar que o seja, apenas admitimos tal probabilidade.
As referências à sua escola primária vem de 1849, sendo o seu primeiro mestre José Inácio dos Reis. Encontramos a exercer funções de magistério, em Moçâmedes, nas aulas dos dois sexos, mais de quatro dezenas de agentes de ensino. As respectivas notas biográficas são das mais interessantes que podemos registar.
Extracto do Livro ”Primeiras Letras em Angola” - Edição da Câmara Municipal de Luanda - 1973, de Martins dos Santos - Pag.s 74 e 75
pesquisa de João Rafael dos Santos
24 de fevereiro de 2006
P.Alexandre: Os Primeiros Colonos
“Assim se passaram três séculos e meio sem que fosse iniciada a colonização e ocupação efectiva das terras do Cabo Negro. Para o Sul, a vida do homem parecia quase impossível. A paisagem era desoladora. As areias movediças, batidas pelo vento, avançavam impiedosamente para o Norte. Não havia vegetação. Não havia água, não havia nada.
“Mas o termo de posse firmado pelo primeiro homem branco a pisar esta região do Globo, impunha-nos não só um direito como também um dever: ocupar efectivamente e colonizar, ainda que para tanto fossem necessários os maiores sacrifícios.
“Por outro lado, a viagem do explorador francês João Baptista Douville, de 1827 a 1830, ao interior africano, e a sua estadia no porto de Moçamedes, a que fez referência detalhada num trabalho apresentado ao Governo do seu país, editado em 1830, levou Portugal a pensar a sério na ocupação e colonização destas terras. Porém, somente em 1854 foi possível tal realização. Assim é que, em 6 de Dezembro daquele ano, dois navios de guerra portugueses – o brigue Serra do Pilar e o brigue-escuna Trindade - fundearam na enseada do Pinda, formada a Norte pela ponta do Cabo Negro e a Sul pela restinga da velha Angra das Aldeias.
“A bordo do primeiro navio vinha o major Marcelino António Norberto Rudzki, encarregado de formar a nova colónia, nas terras desertas do Sul, conforme portaria provincial de três de Novembro daquele mesmo ano. No segundo vinham homens e material para a construção das novas instalações militares.
“Passados dois dias, no cimo da falésia sobranceira à enseada, já flutuava a bandeira azul e branca e era iniciada a construção do novo estabelecimento.
“À iniciativa oficial seguiu-se a particular, e, pouco tempo depois, o comerciante Manuel Joaquim de Sousa Monteiro ergueu, junto à primeira feitoria, uma casa destinada a um estabelecimento.
“Estes foram os primeiros. Estavam lançadas as bases, embora num ponto onde hoje nada existe, a não ser as actuais instalações piscatórias da margem esquerda do Curoca, junto à foz, perto do primeiro local.
“As primeiras iniciáticas foram infrutíferas, mas é possível que tenham estimulado as que se seguiram anos mais tarde. A terra era muito pobre e habitada somente no Vale do Curoca, a uns dez quilómetros para Leste. O gentio reduzia-se a umas dezenas de Cuepes, do grupo Khoisan, denominado geograficamente por Curocas. Viviam miseravelmente. De tempos a tempos deslocavam-se para outras localidades no pascigo de pequenas manadas de que dispunham e a região ficava totalmente deserta. Só com o comércio não era possível iniciar ali a fixação de brancos e negros. Impunha-se a indústria da pesca, naquele local, onde o mar era generoso, e a agricultura nas margens do referido Curoca. Por outro lado, no tempo das grandes chuvas, na região planáltica, o rio enchia assustadoramente, provocava correntes torrenciais, muito perigosas, e não dava passagem da margem Sul para Norte, durante meses. As novas feitorias ficavam na zona puramente desértica, da margem esquerda, portanto isoladas durante as chuvas. Talvez o sítio tivesse sido mal escolhido …
“Surge, efectivamente, a colonização de Porto Alexandre. A designação de Angra das Aldeias já não passava de um ornamento histórico. Por alturas de 1835, o explorador inglês, Sir James Alexander, certamente com autorização do Governo Português, visitou as terras do Sul de Angola, passando, a partir daquele altura, as cartas inglesas a marcar aquela Angra (e até muito mal localizada), com o nome de Port Alexander. Os portugueses aceitaram, cómoda e erradamente o topónimo. No entanto a terra era nossa e, em 1850, heróicos algarvios, os pioneiros da ocupação de todas as nossas baías do Sul e Norte da cidade capital do Distrito, fundaram ali as primeiras quatro feitorias. João Dolbeth e Costa, José Nogueira e um outro colono de apelido Botelho, são indicados como tendo sido os primeiros. Outros se lhe seguiram. Dois anos mais tarde, entrou em Porto Alexandre o caíque Flor de Maio com mais um grupo de abnegados olhanenses.
“Foi esta gente audaz que venceu a dureza e a desolação do terreno, numa ausência confrangedora de conforto. Foram estes homens humildes do nosso povo que venceram a fome, a sede e o tremendo isolamento, escondidos entre as dunas e o mar, batidos constantemente pelo vento agreste, que fustiga sem piedade.”
Moreira (1)
pesquisa de Admário Costa Lindo
19 de fevereiro de 2006
P.Alexandre: A Descoberta.
“A segunda largada de Lisboa do notável descobridor deu-se em Abril de 1484, ou no Outono de 1485”. (1) Na viagem anterior Diogo Cão chegara à costa de Benguela: “A ponta Choca foi o ponto anotado a seguir, pela pequena armada, sendo-lhe dado o nome de Castelo de Alter Pedroso; e, finalmente, mais abaixo, foi atingido, em 28 de Agosto [de 1483], o cabo do Lobo (cabo de Santa Maria), onde Diogo Cão colocou o padrão de Santo Agostinho.”
“Entretanto, Diogo Cão, ultrapassando o cabo do Lobo, deteve-se no cabo Negro, onde colocou o seu terceiro padrão [ 1 2 ], em 16 de Janeiro de 1485 (ou 1486); e cabo Negro, porque o monte, na costa, rodeado de areia, cobria-se de mato raso, que o escurecia. A região era quase deserta. (2)
“A seguir a armada fundeou na angra das Aldeias (Porto Alexandre), assim classificada em virtude das duas aldeias indígenas ali encontradas, cujos habitantes se dedicavam à pesca. Depois, descendo mais abaixo, o navegador entrou na Manga das Areias (Baía dos Tigres), com duas léguas na largura da boca, estendendo-se cinco ou seis, pela terra dentro, e com 12 a 15 braças de fundo. Também aqui o peixe era a riqueza exclusiva. Os negros mantinham-se com ele e construíam abrigos com costelas de baleias que davam à costa e com seba do mar. Tudo o mais era areal confrangedor, desprovido de água, enquanto a navegação era difícil e perigosa, fora da reintrância grandiosa e acolhedora.
“Continuando a sua marcha, Diogo Cão passou o golfo da Baleia, para fundear, a seguir, no cabo da Serra, onde colocou o ultimo padrão. (3) De considerar a ausência de referências ao Cunene, relacionadas com a sua viagem, certamente por o rio não ser notado, devido à natureza da foz.
“Finalmente, avistando, mais a baixo, a baía das Sardinhas e a Serra Parda (ponta dos Farilhões), Diogo Cão deu por finda a sua missão, tornando ao Zaire; fazendo-o, por certo, com mágoa de não prosseguir a rota, por falta de mantimentos, ou torturado pela desilusão sofrida quanto ao caminho da Índia, na hipótese de supor que alcançara o termo austral de África na primeira viagem.” (4)
DELGADO (1) 1º vol. pp. 65/71.
pesquisa e texto complementar de Admário Costa Lindo
__________________________
(1) DELGADO, ob.cit. p. 65
Não se pode fixar, com segurança, a data da saída de Diogo Cão, continuando a ser alvo de controvérsia. O ano mais referido é o de 1484. Mas, há quem discorde. O dr. Damião Peres, por exemplo, considera a sua partida como realizada em 1485. Foi Martin Behaim, no seu globo de 1482, quem, assinalando a passagem de Diogo Cão pelo Cabo Negro, lhe marcou baliza, por estas palavras: “Aqui foram levantadas as colunas do rei de Portugal a 18 de Janeiro de 1485, ano do Senhor.” O ilustre catedrático da Universidade de Coimbra contesta a data, porém, por esta forma: “Deve entender-se que o ano de 1485 da legenda corresponde na contagem habitual moderna a 1486, tendo o Behaim usado ali, certamente, o estilo da Anunciação, segundo o qual os anos começam a Março e não em 1 de Janeiro.” Nota 4 da p. 414
(2) Este padrão encontra-se na Sociedade de Geografia, bem como o do cabo do Lobo.
(3 ) Este padrão foi recolhido, em 1893, pelo comandante alemão Beder, que o levou para o seu pais.
(4) DELGADO, ob.cit. pp. 68/71
Sabe-se que é este o termo da segunda viagem de Diogo Cão devido à legenda latina da carta de Martellus, de 1489, cuja tradução é a seguinte: “Até este monte que se chama Negro chegou a armada do rei de Portugal (João) segundo, da qual armada era comandante Diogo Cão, que erigiu uma coluna de mármore em memória do facto e seguiu avante até à Serra Parda, que dista do Monte Negro mil milhas, e aqui morre.” Nota da p. 71
(1) DELGADO, ob.cit. p. 65
Não se pode fixar, com segurança, a data da saída de Diogo Cão, continuando a ser alvo de controvérsia. O ano mais referido é o de 1484. Mas, há quem discorde. O dr. Damião Peres, por exemplo, considera a sua partida como realizada em 1485. Foi Martin Behaim, no seu globo de 1482, quem, assinalando a passagem de Diogo Cão pelo Cabo Negro, lhe marcou baliza, por estas palavras: “Aqui foram levantadas as colunas do rei de Portugal a 18 de Janeiro de 1485, ano do Senhor.” O ilustre catedrático da Universidade de Coimbra contesta a data, porém, por esta forma: “Deve entender-se que o ano de 1485 da legenda corresponde na contagem habitual moderna a 1486, tendo o Behaim usado ali, certamente, o estilo da Anunciação, segundo o qual os anos começam a Março e não em 1 de Janeiro.” Nota 4 da p. 414
(2) Este padrão encontra-se na Sociedade de Geografia, bem como o do cabo do Lobo.
(3 ) Este padrão foi recolhido, em 1893, pelo comandante alemão Beder, que o levou para o seu pais.
(4) DELGADO, ob.cit. pp. 68/71
Sabe-se que é este o termo da segunda viagem de Diogo Cão devido à legenda latina da carta de Martellus, de 1489, cuja tradução é a seguinte: “Até este monte que se chama Negro chegou a armada do rei de Portugal (João) segundo, da qual armada era comandante Diogo Cão, que erigiu uma coluna de mármore em memória do facto e seguiu avante até à Serra Parda, que dista do Monte Negro mil milhas, e aqui morre.” Nota da p. 71
14 de fevereiro de 2006
P.Alexandre: Toponímia e 1ªs Letras
Extracto de ”Primeiras Letras em Angola” - Edição da Câmara Municipal de Luanda - 1973
de Martins dos Santos - pp 81 e 82
de Martins dos Santos - pp 81 e 82
PORTO ALEXANDRE: TOPONÍMIA E PRIMEIRAS LETRAS
Esta conhecida povoação angolana corresponde à antiga Angra das Aldeias, a que se refere já o famoso clássico português, Duarte Pacheco Pereira, no seu célebre Esmeraldo de Situ Orbis. Diz este escritor que o nome lhe foi posto porque Diogo Cão achou ali duas grandes sanzalas de nativos, e por tal motivo lhe chamou assim.
Bartolomeu Dias visitou também esta baía, onde abandonou uma urca, depois de a esvaziar dos mantimentos que transportava. Deveria antes tê-la incendiado, como habitualmente se fazia em tais circunstâncias.
Em 1770, esteve aqui o conhecido sertanejo angolano, João Pilarte da Silva, em exploração geográfica. E em 1787 a região foi visitada pelo capitão José da Silva, outro explorador do sertão africano. Meio século mais tarde, em 1839, Pedro Alexandrino da Cunha, futuro governador-geral de Angola, explorou igualmente a costa de Porto Alexandre. Nesse tempo era designada por Porto Pinda, embora nas cartas inglesas aparecesse sob a denominaçao de “Port Alexander”.
O padre Ruela Pombo admite que o nome desta cidade se refere, com efeito, ao capitão inglês James Eduard Alexander, que visitou demoradamente as costas de África, a fim de recolher elementos de interesse científico. O regente de Portugal (Ex-imperador do Brasil), D. Pedro e o seu ministro Francisco Simões Margiochi ordenaram ao governador de Benguela que o deixasse transitar livremente, prestando-lhe todo o auxílio de que carecesse e pudesse ser-lhe prestado.
Foi encarregado da construção do presídio ali erigido o major Marcelino Rudzki, que seguia para o seu destino em 4 de Novembro de 1854. Pouco depois juntava-se-lhe o comerciante Sousa Monteiro, que apoiava a iniciativa. No dia 8 de Dezembro desse ano fundou-se oficialmente o presídio. Distinguiu-se ainda na exploração de zona costeira o capitão-de-fragata João Máximo de Sousa Rodovalho.
Estabeleceu-se em Porto Alexandre uma colónia de pescadores algarvios, entre os quais se contava Cruz Rolão; por sua morte, salientou-se pelos seus dotes de coragem e iniciativa a sua viúva, Maria da Cruz Rolão. A data do estabelecimento desta colónia pesqueira foi em 1861.
No final do século XIX, organizou-se a respectiva Comissão Municipal. Em 1895, a povoação era elevada à categoria de sede de concelho. Desempenhou aqui relevantes funções administrativas o tenente Gualdim Martins Madeira.
Norton de Matos mandou construir nesta vila um bairro poveiro, a fim de albergar os pescadores de Póvoa de Varzim, que para ali se transferiram; isso, porém, ocorreu já em 1921, portanto, fora do período que pretendemos estudar.
Apenas na última década do século passado (*) pudemos identificar aqui o primeiro missionário, que serviu de professor. Sabemos que a residência paroquial de Porto Alexandre, que devia servir também para nela funcionar a escola primária, foi construída em 1899. Confrontando esta informação, colhida numa monografia da cidade, com os dados biográficos dos seus professores, chegamos à conclusão de que estava nessa altura à frente da classe o P.e Joaquim Martins Tavares, que consideramos o seu primeiro mestre-escola. Nos primeiros anos do século XX, estava já colocada em Porto Alexandre uma professora de sexo feminino, tinha sido estabelecida a escola de meninas.
Trabalharam nesta localidade, dentro do período estudado, quatro professores, todos missionários, e seis professoras. Talvez a partir de certa altura a escola passasse a ser mista!
(*) Século XIX. N.R.
pesquisa de João Rafael dos Santos
Relembrando Porto Alexandre I
RELEMBRANDO GENTE DE PORTO ALEXANDRE
por Alfredo Baeta Garcia
Parte I
Nota da Redacção
As anotações, referidas entre parêntesis rectos,
são da responsabilidade da Redacção e destinam-se,
apenas, a situar ou esclarecer certos aspectos da narrativa.
Esta relação de gentes de Porto Alexandre foi escrita de memória, mais de 40 anos depois do autor ter saído desta terra.
Não é um recenseamento da população de Porto Alexandre na década de 40. As pessoas aqui lembradas teriam, eventualmente, algumas particularidades que, então, as marcassem, para estarem presentes na minha memória. Dos restantes, que eram em maior número, ainda retenho a lembrança de muitos, mas sem a mesma nitidez e, por isso, não cabem nesta relação.
Em Porto Alexandre, na década de quarenta, existia um grupo de famílias bem demarcado social e economicamente cujos membros, em muitos casos, se tinham cruzado, o que, se por um lado podia dar origem a uma certa hegemonia, por outro contrariavam-na rivalidades que não podiam deixar de existir, pelo que a conjugação desses dois factores permitia um certo equilíbrio que tornava a sociedade alexandrense aberta a todos os estranhos, com um certo cunho de cosmopolitismo à sua medida.
A ordem do rol que se segue não tem qualquer significado especial.
FAMÍLIA SAMPAIO NUNES
Suponho que de origem madeirense e cujo primeiro representante local já havia falecido há anos. No meu tempo ainda era viva sua esposa, a D. Carlota, senhora bastante idosa que vivia com o filho, Sigismundo, meu vizinho pois eu era hóspede da pensão do Chico da Conceição, inquilino da família Sampaio.
O casal só teve filhos:
Albérico, industrial e comerciante, pessoa de fino trato e com aspecto de aristocrata inglês; era casado com a D. Ermelinda, filha dos Tendinha e pais da Gladice, Acrísio e Fernanda;
Edmundo, que foi administrador do concelho e pai do Cap. Arménio Sampaio Nunes que vim a conhecer no Quitexe vinte anos depois, a comandar a 89ª Companhia Independente de Caçadores Especiais, a primeira ali sediada em finais de 1961; Jaime, que foi almoxarife do palácio do Governador Geral, casado com uma filha do Manuel Carvalho, pais da Edite; o último, Sigismundo, casado com uma irmã do Emelino Abano, pais de quatro filhas, entre elas a Sigismunda, a Eunice e a Carlota. Foi meu senhorio, da última casa onde habitei em Porto Alexandre.
FAMÍLIA TENDINHA
Talvez a mais numerosa, da qual ainda conheci o velho Januário e a esposa. Era de Olhão e tinha sido carpinteiro de ribeira. Os filhos que conheci foram os seguintes: Ermelinda, já referida [ na família Sampaio Nunes ]; Januário, casado com uma Frota, era empregado do Sindicato; Avelino, carpinteiro de ribeira, profissão que trocou pela de industrial, de sociedade com o irmão Lourdino; Tomé, pequeno comerciante e pequeno industrial de quem também fui inquilino, de parceria com o Lucas Vicente e de que resultou o casamento deste com a Carminho, filha do nosso senhorio; Marceana, casada com o Prof. Martins que foi meu patrão na Conserveira; uma outra filha, casada com um filho do Correia de Freitas, proprietário d’ ”A Província de Angola”; o mais novo, Lourdino - que deve o nome ao facto de os pais esperarem uma menina, para a qual já tinham escolhido o nome de Lourdes e daí Lourdino – era despachante oficial de alfândega e casado com a D. Josefina, da família Sena, tendo o seu filho mais novo, também Lourdino, levado um tiro que lhe atingiu o fígado, quando prestava serviço militar no Quitexe, onde o encontrei durante a guerra 61/74.
FAMÍLIA SENA
Havia dois ramos provenientes de irmãos, de que apenas conheci o que era cego e pai da Josefina; do António, pai da Gisela; do Alexandrino e de uma Senhora que viveu em Moçambique e que regressou às origens com a família , em finais da década de quarenta.
Ao outro ramo pertenciam o Francisco, sócio da firma “Sena & Ribeiro”, e o Orlando. Eram de origem algarvia.
FAMÍLIA CARVALHO
Algarvia igualmente, com dois ramos provenientes de dois irmãos: o do Manuel e o do Francisco; deste, dois filhos, o Zequinha e o Francisco; do Manuel, o Manelinho, de quem fui inquilino, o Zeca, que era pai da Luísa e da Eugénia, o Eugénio, o Celestino, o Jaime, o Artur – Turra – que teve uma filha que foi Miss Portugal, e uma filha casada com o Jaime Sampaio Nunes.
FAMÍLIA MARTINS DA SILVA
De origem madeirense cuja cabeça, a D. Miquelina, não conheci sequer de vista pois não saía de casa como, aliás, todas as mulheres casadas. Os filhos foram todos empregados da Conserveira, excepto o mais novo, Flávio: Vitorino, carpinteiro de ribeira, casado com uma filha do Avelino Tendinha; Américo, que foi o melhor mestre de sacada do meu tempo; Ângelo, casado com uma filha do Chico Sena; Lúcio, que fui substituir como ajudante de guarda-livros do Serafim Frota, na Conserveira; e uma mulher casada com o António Pires que foi chefe de redacção d’ “A Província de Angola”.
FAMÍLIA SACRAMENTO
De origem algarvia de que mal me lembro: do velho, do qual houve um filho único, o Alfeu, que veio a Lisboa e, de regresso, apareceu de polainitos e com a Cármen Cartier. Uma irmã desta casou com o Francisco Carvalho, sobrinho.
FAMÍLIA PACHECO
No meu tempo era viva apenas a mãe, irmã da D. Miquelina, que também não conheci pela mesma razão da irmã [ vide família Martins da Silva ]. Eram seus filhos: o José, que foi gerente do Banco de Angola; o Justino, que foi empregado de escritório do Albérico Sampaio e ultimamente tinha um Jeep de aluguer para caçadas; o Taruca; e uma rapariga que ficou solteira e que também não conheci, pelas mesmas razões da mãe e da tia. A sua origem era, igualmente, madeirense.
FAMÍLIA SANCADAS
Vivia no Bairro Poveiro e era a que restava da colonização poveira do tempo do Gen. Norton de Matos. Tinha filhos de que pouco ou nada recordo [ recordamos, não obstante, a existência das famílias Trocado e Marques, também dessa colonização ].
FAMÍLIA ARROBAS DA SILVA
O velho Adriano, que aqui terminou a sua carreira administrativa como secretário, era casado com a D. Luísa, em casa de quem fui comensal. Ela era uma santa mulher, por aquilo que lhe aturou e tiveram os seguintes filhos: Fernanda, casada com o Prof. João Cardoso; Emília, casada com o Mário Carneiro; Fernando, que foi funcionário da Alfândega; e João, que veio a ser funcionário administrativo, como o pai, e casou com uma filha do António Alípio. Era de origem cabo-verdiana.
FAMÍLIA BODIÃO
Algarvios, divididos em dois ramos, de quem não lembro os nomes. Um deles tinha dois filhos que foram empregados da Conserveira e uma filha.
FAMÍLIA VIEGAS
No meu tempo só era viva a mãe, que não conheci pelo mesmo motivo das outras. Este facto não deixa de ser estranho, pela razão de eu ter ali vivido, ininterruptamente, onze anos e ter conhecido, efectivamente, toda a gente. Havia os seguintes irmãos: Aureliano (Lianinho), empregado de balcão da Conserveira; o Lila, empregado do Sindicato da Pesca; e o Rui que era o mais velho.
FAMÍLIA ANTÓNIO ALÍPIO ou PANTALEÃO PISOEIRO
Nunca soube qual destes dois nomes era o legítimo; nazareno e mandador da armação da “SOS”. A mulher, Noémia, era da família conhecida pela alcunha de Chimpenso, apenas constituída por mais dois irmãos. Tinham quatro filhas e um filho: uma casada com o João Arrobas; outra, Antonieta, a rapariga mais bonita desse tempo, casou com um primo de Moça-medes , filho do Chico da Conceição, e morreu do primeiro parto.
FAMÍLIA JOAQUIM ROMÃO
Algarvio da Fuzeta. Tinha um filho e duas filhas e era sócio principal da “Parceria de Pesca”. Um cunhado seu, o Manuel Reis, foi seu sócio na fundação da “Lusitana”. Tinha um meio-irmão, o José Rolão, seu empregado que fundou, com o Baldomero Trocado, ao tempo também empregado da “Parceria”, o primeiro cinema permanente instalado na vila e depois foi para Moçamedes inaugurar ali a primeira pastelaria, a “Rollan”, de sociedade com o Zé Lã tendo, antes, começado com uma fábrica de amêndoas, talvez a primeira de Angola.
FAMÍLIA DO Ó FAUSTINO
Era uma família numerosa e antiga que, em parte, se dispersou. Nesse tempo o seu membro mais representativo era o Constantino, sócio minoritário da firma “Antunes da Cunha” e cunhado do sócio principal, que era o velho Albino da Cunha. A sua secção comercial era a mais importante nesses primeiros tempos. O Albino tinha um filho, o Joaquim Albino, que jogou futebol na Académica. Um seu sobrinho, o John, foi o meu maior amigo dessa época, teve um desastre de avioneta em Moçamedes e ficou parcialmente paraplégico, morrendo poucos anos depois, em Lisboa.
FAMÍLIA BARRETO
Também das mais antigas e que, inicialmente, esteve instalada na parte terminal do Curoca, chamada Pinda, numa minúscula fazenda já abandonada em 1943, cujos vestígios eram, apenas, duas ou três palmeiras e deu o nome à rampa que sobe do Curoca ao planalto de Sto. António, chamada “Subida do Barreto”. Só lhe conheci um filho, chamado Alberto.
FAMÍLIA CRUZ
Suponho ser descendente de uma lendária Maria da Cruz Rolão, patrona da escola primária da vila, por ter intimado, na qualidade de Regedora, uma canhoneira inglesa a levantar ferro, o que esta, surpreendentemente, fez, apesar de não existir qualquer força visível que a isso pudesse obrigá-la. Eram seus descendentes, tanto quanto presumo, Carolina da Cruz, mãe e filha. Não sei se o Júlio da Cruz era, ou não, da família.
FAMÍLIA PELEIRA
O pai, Vergílio Peleira, morreu no ano da minha chegada. Tinha um irmão, Veridiano Peleira, que não sei qual era a sua actividade, só que andava sempre encasacado de caqui e gravata e com uma pequena vergasta na mão. Era pessoa de poucas falas, presumo que por timidez. A viúva do Vergílio ficou a gerir um pequeno estabelecimento e uma ou duas canoas de pesca à linha e com isso, equilibradamente, conseguiu acabar de criar os três filhos, dos quais o Tica, que era o mais velho [1], casou com uma filha do Tomé Tendinha.
FAMÍLIA GASPAR
Ele era natural da Figueira da Foz e também faleceu no ano da minha chegada. A viúva era irmã da mulher do Peleira. Tinham vários filhos e uma filha, Ermelinda, que esteve para casar com o José António Neves Graça, mas que o Prof. Martins, quixotescamente, fez abortar sem ter nada a ver com o assunto.
FAMÍLIA NEVES GRAÇA
O pai Neves já se tinha retirado antes de eu chegar, o que era um caso muito raro: quem vinha era para ficar. Tinha dois filhos: o Joaquim, em Moçamedes, na firma “Amadeu Gonçalves & Neves” que era, maioritariamente, do pai; e o José António que, ao tempo, geria a “Sul Angolana”, também da família. O José António tinha o privilégio, único na terra, de ser servido por uma criada branca, já de certa idade, a Senhora Carlota que tinha sido sua ama em casa dos pais, nas imediações do Porto. Tinha um primo, o Mário Carneiro, que foi empregado da “Sul Angolana” e depois se estabeleceu com uma pequena pescaria, ao mesmo tempo que fazia fretes com uma camioneta. Casou com a Emília, filha do Arrobas da Silva.
FAMÍLIA PROF. MANUEL DA PIEDADE MARTINS
Como já disse, ele era casado com a D. Marceana, filha do velho Januário Tendinha. O casal tinha quatro filhos: o Armando, que faleceu pouco depois de chegar em 1975; o Carlos e duas filhas: a Balela e a Gracinha, ambas bastante mais novas que os dois irmãos. O Prof. Martins pediu a reintegração como funcionário, muito mais tarde, e a última vez que o vi foi em Luanda.
(continua)
[1] O filho mais velho de Vergílio Peleira e Irene Alves, é Mário Alves Peleira; vd. comentário de Nair a este artigo, 11:23 PM, Fevereiro 18, 2006
última revisão: 4.05.2006
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